Cha Dafol fotografada por Alass Derivas.
Ela nasceu na França. A música popular brasileira a encantou. No ano de 2013, ela decidiu que viria de "mala e cuia" para o Brasil. Recentemente produziu o documentário "De olhos abertos". Conheça Charlotte Dafol.
Olhe o que elas fazem

COMO NUM ROMANCE

Como num romance, título desta entrevista, é nome de uma seleção de crônicas, poemas, pensamentos e relatos de vivências publicada pela nossa entrevistada.

Cha Dafol fotografada por Annekatrin Fahlke.

 VIM PARA O BRASIL

Como você veio parar aqui?” Essa é, sem dúvida, a pergunta que mais escutei na minha vida. Confesso que nunca sei por onde começar para responder.

Em 2007, fiz um intercâmbio de um ano em Porto Alegre, para ser voluntária num projeto social, no Morro Santana. Amei a experiência, o estilo de vida e fiz amizades que duram até hoje. Alguns anos depois, eu voltei com mala e cuia para morar no Brasil. Mas também daria para contar que “tudo” começou na verdade bem antes, estudando violão, descobrindo Tom Jobim e Baden Powell, com professor que, na hora certa, me convenceu que eu tinha que conhecer a terra desse pessoal. Na época, a minha principal referência sobre o Brasil era futebol e sobre Porto Alegre, o Fórum Social Mundial, que tinha tido uma boa repercussão por lá. O resto, eu fui descobrindo, assim como eu fui aprendendo o idioma, do qual eu não sabia nada quando cheguei.

 CIDADÃ DO MUNDO

É que, na verdade, deveria começar por aqui: parada eu não estou. Ninguém está. Mesmo em tempos de pandemia. Vivemos criando laços, humanos e materiais, crescendo e aprendendo, absorvendo ao nosso ritmo o que o mundo tem a nos dizer. As influências são muitas e os caminhos infinitos. Isso é ser cidadã(o) do mundo.

Eu não gosto de ser rotulada como “de tal lugar” ou “filha de Fulano”, ou pelo signo ou gênero, porque acho isso muito redutor. O Eduardo Galeano disse “Somos o que fazemos para mudar o que somos”. Gosto muito dessa frase. Vamos compondo a nossa história – e interferindo permanentemente nas histórias dxs outrxs. Essa é a nossa responsabilidade mais desafiadora: usufruir a liberdade de levar a vida como queremos, cultivando o desapego, mas cuidando também dos laços que tecemos, das expectativas que criamos. Ser cidadã(o) do mundo não é coisa fácil! É uma busca permanente de qual é o seu lugar agora, sabendo que amanhã pode ser outro, sabendo também que, além das suas vontades, outras pessoas podem estar contando com você.

Ninguém é imprescindível, mas também, é importante lembrar que não estamos sós neste mundo e que, em muitas situações, podemos fazer a diferença.

CRIAR RAÍZES E LAÇOS

Acho que isso resume bastante o meu caminho dos últimos anos. Vivendo e convivendo em coletivos, mochilando pela América do Sul, morando em ocupações urbanas ou comunidades, participando de movimentos políticos e sociais, dirigindo um longa-metragem ou até mesmo tocando música na rua (ou, agora, na internet). Em cada segundo dessas experiências, tentei fazer o que eu podia fazer de melhor naquele momento. Muitas vezes, eu tive a sensação de estar exatamente no “meu” lugar.

Dessas aventuras, nasceram alguns frutos. Um livro – Como num romance, editado pela Libretos, reunindo poemas e crônicas ambientadas no Rio de Janeiro. Um filme – De olhos abertos, documentário sobre o jornal Boca de Rua, feito por moradores de rua em Porto Alegre. E diversos projetos musicais – a banda Queixada, de samba e MPB, sendo o último deles. Esses trabalhos foram produzidos e financiados de maneira independente, mas são o resultado de muitas trocas e vivências, de um corpo “em trânsito” no sul do Brasil.

Cha Dafol fotogrando. Foto de Mauro Marques.

O DOCUMENTÁRIO DE OLHOS ABERTOS

O documentário De olhos abertos foi gravado em 2019, em Porto Alegre, junto com os integrantes do jornal Boca de Rua, único no mundo por ser feito por uma equipe de pessoas em situação de rua.

Como não consegui nenhum financiamento, acabei fazendo ele do jeito que deu, fiz uma vaquinha na internet para comprar um equipamento básico (e usado) e saí filmando tudo sozinha, roteirizando e produzindo através da ONG ALICE, que faz o próprio jornal. Apesar das dificuldades e falhas, foi uma experiência incrível! Alguns amigos vinham me ajudar no set quando podiam, outros fizeram a trilha que foi gravada em casa, dentro de um quarto… daqui a pouco, já estávamos com trailer e legendas em quatro idiomas! Na edição e pós-produção, pude contar com a parceria de profissional para fechar a versão final do filme, que tem quase duas horas.

Agora, com a pandemia, a questão do lançamento e da distribuição ficou mais complicada. O filme ficou pronto em março de 2020, uma semana antes de fecharem quase todos os cinemas do mundo! No ano passado, ele foi selecionado em 15 festivais internacionais, mas que acabaram acontecendo de forma virtual. Como ainda está circulando neste circuito restrito – aliás, acabei de receber a notícia que vai ser exibido no mês que vem no festival  Toronto Lift-Off, no Canadá – ele ainda não pode ser lançado comercialmente. 

Imagem parcial do Jornal Boca de Rua. Link: < [Trailer documentário] De olhos abertos>

O RIO DE JANEIRO E A ESCRITA DO LIVRO

Morei um ano e meio no Rio de Janeiro, entre 2017 e 2018 – ano de carnaval censurado, intervenção do exército na segurança do estado, assassinato da Marielle e eleição do Bolsonaro… Eu tocava música na rua e me aproximava de movimentos sociais através da fotografia e do jornalismo independente. Também costumava publicar textos num blog, crônicas ou poemas relatando um pouco dessa experiência. Em 2020, já em Porto Alegre, resolvi reunir esses escritos, juntando com alguns inéditos, e a Editora Libretos se animou a publicá-los. Como estávamos em plena bandeira vermelha, não houve lançamento presencial e acabei vendendo o livro eu mesma, pelo boca a boca.

Capa livro

A PRODUÇÃO MUSICAL EM 2021

A banda Cha & Queixada se formou em 2019, junto com Paulinho Bettanzos, Marcelo Eguez e Paula Finn, no intuito de tocar música brasileira, mas sob a influência de outros ritmos vindo da América do Sul ou da Europa.

Em 2021, na impossibilidade de ensaiar entre quatro com a pandemia apertando, acabei fechando uma parceria mais próxima com a Paula Finn, percussionista, bailarina, multiartista inquieta. Divulgamos alguns vídeos nas redes da Queixada, da qual também fazia parte, e realizamos duas lives no mês passado, em cima de um repertório parecido com o da banda.

 A ENTREVISTADA
Cha Dafol fotografada por Mauro Marques.

UM PRESENTE PARA HISTORI-SE

Cha Dafol e Paula Finn compartilharam o vídeo de uma interpretação da composição Geni e o Zepelim (Chico Buarque). Confira no link: < Geni e o Zepelim >.

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