Arte: Histori-se
As vozes de Afrodite

Neste ano de 2024, Mamma Mia (2008) é aquele filme que continua a agradar pessoas de todas as idades: adultos, jovens, adolescentes, idosos…

Mulheres e homens homo e hetero afetivos compartilham o desejo de assistir novamente e mais uma vez e outra vez ao musical dirigido por Phyllida Lloyd.

Claro, não vou esquecer que há espectadores que simplesmente não suportam musicais. Ainda assim, creio que caberia a pergunta: afinal, que ingredientes fazem desta película a “coqueluche” de cinéfilos e não cinéfilos há mais de quinze anos?

Imagem encontrada nas ruínas de Pompéia batizada como o Nascimento de Vênus
Arte: Histori-se

Mamma Mia e Afrodite

Inicio nossa conversa sobre o musical Mamma Mia com uma pequena história.

Há alguns anos, mais precisamente em 2020, apresentei a estudantes do Ensino Médio um conjunto de observações referentes aos elementos que compõem a narrativa do filme.
O grupo faria uma adaptação da obra para um espetáculo musical e teatral.
Dias depois, uma professora que assistira a minha exposição perguntou se eu já produzira um artigo com o material reunido e apresentado.

Hoje, muitos anos passados, ainda sinto dificuldade em escrever sobre todo o material que reuni.

Primeiro, porque de fato gosto bastante da película. Por isso, não posso traí-la ao pensar em uma análise de suas várias linhas de sentido: mãe solo, amizades de vida, preconceitos ainda atuais, homens que compartem a paternidade, relacionamento entre mulheres com muita vida vivida e rapazes muito jovens, as crises da instituição casamento etc. etc.

Em segundo lugar, acredito que o desdobramento de minha palestra em texto escrito ocuparia muitas páginas, um número bem maior do que aquele destinado aos artigos científicos e acadêmicos.

Então, de outras leituras, emergiu o desafio:

Mas, o que prometi contar foi a viagem do ano passado. Contar “com que roupa” ? […] (o país) é qualquer coisa fora e acima deste mundo, assim mais ou menos pendurada a meio caminho entre o céu e a terra”, escreve Guimarães Rosa aos pais*, em setembro de 1950.

Para dar a dimensão de seu problema, o escritor usa um verso de uma canção de muito sucesso:

E agora com que roupa/
Com que roupa que eu vou/
Pro samba que você me convidou?

(Noel Rosa, 1930).

Como eu posso falar do encantamento desse musical?
Com que roupa?

O que sinalizei a você, cara leitora, caro leitor, foi buscar alguma resposta para a aceitação incrível de um filme que não sai de cartaz.
Obras como Jesus Cristo Superstar (1973) e O show deve continuar (1979) em que música e dança se entrelaçam, ou narrativas bem construídas e com temas atuais como Amadeus (1984), Morte e vida severina (1977), Sleepers – a vingança adormecida (1996), ou os mais recentes Bem vindo a Marly-Gomont (2016) e O barulho da noite (2023) recebem menos atenção do público em geral. Se não forem indicadas, dificilmente serão assistidas.

Já o filme de Phillyda Lloyd é sucesso de público garantido.

Muitos recursos audiovisuais fazem de Mamma Mia um filme sedutor, a contar uma história que sempre nos interessará. Comentarei aquele que mais chamou minha atenção e que, acredito, articula as demais estratégias para a narração: músicas, cenários, enredo, por exemplo.

Comentarei a cor como recurso narrativo, como modo de sublinhar os sentidos da história presente no filme.

Minha escolha está alicerçada na condição de leitora de obras cinematográficas.
Como tal, aprecio os filtros que o cineasta usa para realçar cores; ou a organização de um cenário ornado com variedade de objetos ou com múltiplas cores em contraste, ou com camadas de tons de um mesmo matiz; ou ainda a realização de uma fotografia escura em todo o filme, ou com o uso de preto e branco, por exemplo.

Arte: Histori-se

Cenários e Vestimentas – O Mar

Em Mamma Mia, vários tons de azul articulam o universo feminino e trazem à tona referenciais simbólicos diretamente ligados a Afrodite, a Deusa do Amor nascida das águas do mar.

Donna, a protagonista da história, usa um macacão de trabalho e um vestido para apresentações das Dínamos em tons de azul escuro; os vestidos em tons de azul, azul e branco ou prata nos recordam o mar e suas ondas, quer em seus azuis esverdeados brilhantes, quer no farfalhar espumante e branco, quer nas cores de prata com que a lua colore o oceano.

Ainda quando tem sobre os ombros um manto vermelho, Donna molda o corpo com um vestido em tons verdes, azuis e branco. À semelhança da deidade representada em afresco do século I d. C., em Pompeia, deitada dentro de uma concha, ambas rodeadas pelo oceano azul, Donna é herdeira dos predicados de Afrodite – e as roupas da protagonista alertam o espectador nesse sentido.

Algumas vezes confundida com Vênus, a deusa grega recebe o nome latino em um dos quadros mais famosos de Sandro Botticelli, O nascimento de Vênus.

Desnuda sobre a concha, os tons em azul do mar e do céu emolduram o momento em que o Mundo Antigo recebe Afrodite.

É-lhe oferecido um manto em tons avermelhados, mas todo o corpo da deidade está envolto pelo azul de onde surge.

Ao retratar Vênus e Adônis, o francês François Lemoyne cria uma figura feminina que exibe formas exuberantes mal cobertas por um manto azul a escorregar pelo corpo que se movimenta em direção ao jovem objeto de seu amor.

Já em Vênus e Cupido, o italiano Giovanni Pellegrini revelará uma jovem mulher com expressão serena, parcialmente envolta em um manto azul, conversando com Cupido, o filho, aninhado entre as pernas da mãe.
Embora ela pareça orientar a criança, há em seu gesto certa autoridade, a tela traduz suavidade nos corpos e rostos.

O espanhol Enrique Simonet pinta uma deusa que se oferece nua, com os braços estendidos em sinal de entrega e disposição para receber.
No corpo dela estão refletidos os tons azulados que a distinguem das outras deusas no Julgamento de Páris.
O mar ao fundo e a natureza Mediterrânea, em tons azuis e verde azulados, reforçam as relações da deusa com a natureza e destacam a vencedora do concurso que elegeu a mais bela dentre as três deidades

De formas generosas, com um corpo voluptuoso e branco, Afrodite/Vênus é frequentemente representada nua.

Donna também apresenta um corpo de formas arredondadas e fartas, mas elas ganham destaque nas roupas, quer a de cantora em que se assemelha a uma sereia, quer no vestido que usa ao levar Sophie ao altar, com um decote generoso que deixa à vista o contorno dos seios.

Quase a imitar as pinturas famosas, a protagonista do musical reside em uma ilha cercada por águas claras e azuis, em uma pousada azul e branca.

Em suas vestes e no ambiente que a cerca, as cores que permeiam o mundo de Afrodite abraçam Donna.
A mãe solo, cantora e dona de uma pousada foi uma amante ardente, alegre, ávida por amores e capaz de oferecer seu corpo e seus sentimentos com honestidade, sem falsos pudores, pelo simples prazer de amar.

Essa é a plenitude de Afrodite que Donna pode fazer ressurgir ao reencontrar amores de sua juventude.

No filme, não importa a idade: as dádivas da Deusa do Amor estão à disposição de quem as quiser.

O elemento de onde nasce a deidade, nas telas que comentei acima, parece permanecer como parte de sua psique, de seus atributos. Como o mar, Afrodite/Vênus é impetuosa, inconstante, forte, doadora; assim, audaciosa, ora é ridicularizada em adultério com Ares, ora sofre de amor por Adônis, ora ama um mortal.

É a Deusa do Amor (puro ou pandêmio) que oferece presentes que causam guerras, mas protege o guerreiro e o desbravador. Afrodite abraça e acolhe, como fazem as águas do mar manso, mas também derruba como a força das ondas.

A todo o simbolismo já visto, devemos acrescentar a figura dos delfins, companheiros de deidades marítimas como o deus Poseidon e a ninfa Anfitrite.

Na pintura O nascimento de Vênus de William Adolphe Bouguereau, ou na escultura em barro Eros cavalga um golfinho, provavelmente do século V a. C,. temos a presença desses seres que, na Antiguidade, eram vistos como mensageiros a serviço dos deuses e como membros de uma corte marinha.
Em Bouguereau, anjos brincam com um delfim aos pés de Vênus. Eros sobre o golfinho reforça a ideia de animais a serviço dos deuses, condutores de mensagens entre as deidades e os mortais.

Mamma Mia, o filme
Mama Mia – cartaz de divulgação.

Mamma Mia – Uma leitura possível

Sophie é a personagem que anuncia a existência de uma fonte de Afrodite na ilha. E, em frente a pousada, no chão do pátio, está a figura de um golfinho executada com pequenas pedras brancas.
A imagem, ao longo da narrativa, irá romper duas vezes

Após mostrar o quarto destinado a Tanya e Rosie e avisar sobre problemas na descarga do sanitário e sobre uma janela e uma cadeira quebradas, a anfitriã revela seus sonhos de riqueza.
Donna e suas recém-chegadas amigas cantam “Money, Money, Money”. O espectador visualiza a vida em um barco luxuoso, com comidas, bebidas e prazeres que exacerbam sensualidades.
Claro, esse gozo é compartilhado com Tanya e Rosie, presentes na abundância desenhada nas imagens. A sonhadora usa vestimentas com reflexos prateados, ou azuis e brancas, com o mar à vista.

Ao fim da canção, Donna e algumas funcionárias estão no pátio, recolhendo lençóis e toalhas.
No macacão azul jeans, a proprietária traz um cinturão com ferramentas.
Nesse instante, um barulho e o detalhe da câmera no chão do pátio revelam que a imagem do delfim acabava de rachar.
Tanya e Rosie aproximam-se, a primeira com uma garrafa de champagne na mão.
Donna tranquiliza as duas, afirma que vai consertar.

When all is said and done” e “Take a chance for me” já anunciavam o espírito do momento após o casamento.

Donna, ao defrontar-se com emoções represadas no diário, reencontra um passado pleno, em particular com Sam.
Sophie, ao desvendar os segredos da mãe sobre seu pai, aceita o momento presente com uma mãe, três pais e Sky, um homem que a ama como ela é.

Os convivas e os recém-casados dançam e cantam nas cenas finais.
Há muita comida e bebida, uma festa, e todos entoam “Mamma mia”!
Então, sob o peso dos pés, sob o ritmo da alegria, a imagem do delfim rompe novamente. Agora, o detalhe da câmera revela as pedras brancas que saltam permitindo a saída de água.
A água jorra branca e intensa, em abundância, molha a todos os participantes daquela festa.

Donna em frente a Sophie não tem dúvidas: “É Afrodite”!

Casais trocam beijos, amigos se abraçam.

Narrativamente, já no início do enredo, a rachadura na imagem do golfinho revela uma brecha, uma ruptura.
Tanya está viúva, em busca de outro marido.
Rosie ainda curte sua vida solitária.
E Donna nunca mais, depois da maternidade, voltou a amar um homem.
A brecha está seca. É pequena. Metaforicamente, não há água para molhar, para tornar úmido e fértil.

Por outro lado, o delfim está desenhado na pousada de Donna, a mulher cujas vestes remetem à Deusa do Amor.

Por meio de Donna, os atributos da deusa podem alcançar a protagonista e todas as pessoas que a cercam.
Se o golfinho remete ao mar e às deidades marítimas, Donna remete àquela que nasceu das ondas.

Sob as águas por meio das quais o delfim lembra a Donna o poder de Afrodite e leva as bênçãos da divindade ao grupo, as cenas mostram uma Tanya que aceita o jogo de sedução de um homem jovem; dois solitários, Rosie e Bill, que parecem apostar em uma chance; um Harry que, entre beijos, se descobre com seu namorado; Donna e Sam que comemoram uma relação sedimentada por anos de amor e distanciamento; e Sophie e Sky aproveitando o momento e as decisões tomadas.

Os festejos são a celebração da rendição amorosa. A dança lembra a busca do ritmo, do movimento.
Os corpos suados e molhados metaforizam o doar-se sexualmente, tanto ao abrir-se para receber o outro quanto ao gozar juntos, num ejacular recíproco de líquidos e emoções.

Donna não é Afrodite, mas aceita, desde a juventude, as dádivas da deusa.

Suas escolhas definem uma vida não convencional. Como mulher, foi amante e foi amada por homens diferentes; como mãe solo, estabeleceu uma relação profunda com a filha a quem legou a honestidade de viver sem violentar os próprios desejos; como amiga, cultivou afetos, lealdades e histórias.

Como sereia, Donna nos chama. Por isso, revisitamos o musical insistentemente.
O filme traz esperança por meio de sentimentos que, acreditamos, tornam o mundo melhor.
E sonhamos com nossa ilha, com as bênçãos de Afrodite, com as felicidades que desejamos ainda alcançar em nossas vidas tão presas ao cotidiano.

Que Afrodite nos alcance!

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Referências: 

  • FARINA, Modesto. Psicodinâmica das cores em comunicação. São Paulo: Edgard Blücher. 4ª Ed. 1990.
  • GRIMAL, Pierre. Dicionário da mitologia grega e romana. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 2ª Ed, 1993.
  • *ROSA, Vilma Guimarães. Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai. 2ª ed. ver. e  ampliada. Rio de Janeiro, Nova Fronteira. 1999.

Imagens:

As imagens destacada, 1 e 2  são artes de: <Histori-se  >.

  • Imagem destacada composta com imagens de divulgação do filme Mamma Mia e outras de domínio público
  • Imagem 1. Pintura encontrada nas ruinas de Pompéia (Itália) nomeada como O Nascimento de Vênus.
  • Imagem 3. Obra de Sandro Botticelli, O nascimento de Vênus.
  • Imagem 4. Obra de François Lemoyn, Vênus e Adônis.
  • Imagem 5. Obra de Enrique Simonet, O Julgamento de Páris.
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