Úrsula _ mulheres que escrevem 

Cris Costi compartilha  o texto “Desde que sim“.
È pura paixão! Mas nada de spoiler …  Apreciem a leitura.

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DESDE QUE SIM

Tá tudo aceso em mim, tá tudo assim tão claro que fecho os olhos e ligo o foda-se. Foda-se.

Foda-se esse respeito que tento buscar pelo teu momento, foda-se o tempo e suas exigências de curso, foda-se a cautela, o medo de que alguém aí descubra, de que alguém aqui descubra.

Fodam-se as ligações na conta, foda-se a conta, tua crise, meu medo, teu cansaço.

Foda-se a distância entre nossos endereços. Foda-se o que nos fode, nos ferra, nos limita e por sorte não afasta.

Hoje não vou entrar com pés pisando em ovos.

Vou entrar na tua vida feito entrei no teu perfil.

Vou pedalar a tua porta. Te entupir a caixa de mensagens e te afogar num mar de canções bem escolhidas.

Vou te esperar sair do banho e te pedir para abrir o roupão.

Vou te ver nua e, quando longe, te comer por telefone.

Vou me tocar e te pedir para vir comigo. Vou te comer e te foder e te trepar via Embratel, te derramar mel e rubis.

Eu vou pegar um avião, cruzar um, dois, três, quatro estados.

Vou subir as tuas escadas, invadir a tua casa, tomar teu gato como meu.

Te convidar para a fantasia.

Vou te sequestrar pra Teresópolis projetando livro e gozo.

Levar papel, levar caneta e uma nudez bem da safada.

Vou te chamar para escrevermos o que houver a ser escrito.

Rabiscar em dedos firmes, traçar linhas do desejo.

Te ver verter, te ver chorar, te celebrar em samba e em arte.

Chutar o balde, abrir as portas.

Borrifar o teu perfume. Vou te amar até ter fome.

Vou ligar para tele-entrega e te comer preenchendo o cheque.

Vou deixar tudo esfriar para te comer, então, em par

Quadris em pleno movimento, subir, descer até chegar.

Vou te dizer para vir comigo, vou te levar pra onde eu for.

Te rir nos parques, beijar na areia, fotografar na luz solar.

Vou te banhar de língua e orla. Sentir tesão no caminhar.

Vou te achar uma obra-prima, te fazer tela, te pintar.

Querer então que seja mais.

Valiosa e minha, bem preciosa, te expor e leiloar.

Vou te dar meu melhor lance.

Bater todos os martelos.

Ser juíza do teu curso, saber a medida do teu peito, te lamber no veredito: minha, minha.

Vou te roubar e me perder no desejo só de te olhar: tu, dourada, braços nus, sobre a sofá de ontem à noite.

Vou invadir a tua festa e divertir os teus amigos.

Vou ser a rolha do champanhe. Estourar com estardalhaço, vou sussurrar ao pé do ouvido.

Te repetir: amada, amada. Te ver zonza, te ver tonta, desfalecida de cansaço.

Te ver presa em meu abraço.

Amarrada da minha cama, nó nenhum nas nossas vidas.

Só tu e teus fios loiros, boca linda, olhos de mar.

E eu, feito um navegador: para lançar velas, caravelas, pedir licença e lá ficar.

(Desde que, sim, eu vim morar nos teus olhos.)
Cris Costi
Autora: Cristiane Costi e Silva ( Cris Costi). Professora. Apaixonada pelas palavras. Achando, como bem disse Adélia Prado, que “a coisa mais fina do mundo é sentimento“.

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