Recife (PE - Brasil)
sob as luzes do cinema e da história.
Relato de viagem: Recife e Olinda

Chegamos a março invariavelmente com dois sentimentos: cansaço e alegria.

O primeiro devido à movimentação e festas que o período de férias proporciona.

O segundo, devido a tudo o que pudemos fazer: encontro com amigos, visitas a cidades e localidades que não conhecíamos, realização de antigos e acalentados sonhos.

Recife e Olinda

Ir a Recife e Olinda foi, para meu esposo – Claudio Knierim – e para mim, uma viagem que nos trouxe tudo o que mencionei acima.

Fizemos novos amigos, visitamos todos os cantos possíveis de Recife e de Olinda em doze dias e conhecemos monumentos e localidades que há muito nos interessavam.

Sou cinéfila e professora de literatura; ele, pesquisador cultural e historiador. Essas áreas do conhecimento nortearam nossas escolhas.

Nestas postagens, dividimos com vocês fotos e momentos. A maior parte das fotos foi produzida pelo Claudio.

A Igreja de Boa Viagem
Sonia Braga como Clara.
Foto de Victor Jucá (divulgação)

Mostramos o prédio em que foi filmado Aquarius, com Sônia Braga* na pele da protagonista, bem como alguns antigos cinemas de Recife e a Igreja de Boa Viagem, monumentos apresentados em Retratos Fantasmas – ficção e documentário, que respectivamente, fazem parte da filmografia do cineasta Kleber Mendonça Filho, um filho dessa Recife histórica e moderna.

Foto: site da paróquia de Boa Viagem.
Impressionante em seu isolamento arquitetônico, cercada por prédios e feirantes, a Igreja de Boa Viagem encanta.

À noite, cercada por artesanato, turistas e devotos, a paisagem é alegre e emocionante ao mesmo tempo.
Misturam-se as risadas e a música das ruas, o burburinho de clientes e vendedores e as orações que reúnem fiéis dentro e fora da pequena igreja.

Afinal, a praça torna-se uma extensão da nave: cadeiras plásticas dispostas na rua são oferecidas aos retardatários que desejam participar do ofício religioso.

Praça de Boa Viagem
Recife (PE – Brasil)
Cinemas

Os cinemas Art Palácio e Trianon não mais existem, de fato. E chama a atenção o destino que receberam.

O Art Palácio, a cidade entregou à degradação e ao esquecimento.
Cercado por ambulantes, o cinema desaparece sob o colorido de roupas e a variedade das sandálias.

Do cinema Trianon, a arquitetura coberta de silêncios.
Arte: editora de Histori-se. Foto e texto: Vera Haas.

Já o prédio do Trianon ostentava, no dia em que lá estivemos, nas portas cerradas, cartazes e uma identidade: UniNabuco.
No chão, livros à venda ocupavam a frente da sala de cinema de outrora. Concordo com o narrador de Retratos Fantasmas: ‘o cinema nos faz mais saudáveis e felizes’.

Frei Caneca

E, pensando nos fantasmas de Recife, há outros.

Frei Caneca, pareceu-nos, ocupa o lugar de destaque.

E, nas ruas, o autor de O cão sem plumas e Auto do frade secunda o frade carmelita.

Contemplar o Capibaribe das pontes da Veneza Brasileira me extasiou.
Sim, porque eu via não a apenas a paisagem a minha frente, dançaram ante meus olhos os poemas de João Cabral de Melo Neto.

"Junta-se o rio a outros rios numa laguna, em pântanos onde, fria, a vida ferve" (O cão sem plumas)

O Auto do frade – poema para vozes – reconstitui a ida de Frei Caneca à forca e o arcabuzamento do frade.

Condenado à morte por divulgar ideias republicanas e aliar-se aos revoltosos de 1824, não foi encontrado um carrasco que executasse aquele filho de Recife.

Por esse motivo, como “ninguém quis enforcá-lo/ na hora final foi promovido” ; assim, recebeu “essa honra de ser fuzilado” (*), morto por um pelotão de fuzilamento.

Duzentos anos da morte de Frei Caneca
Claudio Knierim e a imagem de Frei Caneca no prédio que abrigou a antiga prisão de Recife
Claudio Knierim

Percorremos o caminho da Basílica do Carmo até o Forte das Cinco Pontas, passando pelo Arquivo Público e pela Igreja do Terço.

Frei Caneca do Amor Divino ordenou-se na Basílica; em 13 de janeiro de 1825, o frade carmelita saiu da prisão – hoje, o Arquivo Público – em direção à Igreja do Terço, em cujo pátio foi excomungado.
Em seguida, caminhou até o Forte das Cinco Pontas, local em que foi executado por um pelotão de fuzilamento.

A historiadora Valéria Barbalho, Claudio e eu. Historiadores, maçons e frades carmelitas, além de familiares de Caneca, estiveram presentes no ato de 13 de janeiro de 2025.

Abaixo, uma cena que me acompanha desde 1972, Execução de Frei Caneca, de Murillo La Greca, imagem que ilustra a página 348 da coleção Grandes personagens da nossa História, da Abril Cultural.

Execução de Frei Caneca (detalhe)
Olinda
Em Olinda, participamos da famosa Queima da Lapinha.

O termo lapinha faz alusão à manjedoura onde Jesus estava quando visitado pelos Reis Magos. Esse pastoril tem por nome Estrela de Belém e ocorre no Dia de Reis.

Ao ar livre, num coreto, cantigas, danças e uma encenação somam-se à caracterização do cordão azul e do cordão encarnado, representando as disputas entre cristãos e mouros, e à figura de Diana, que trará a harmonia.

Participam crianças, jovens e a Mestra Ana Lúcia Nunes da Silva, que há anos coordena o evento e transmite seus conhecimentos às novas gerações.

A apresentação aconteceu em Olinda, em praça ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Carmo. As cores do vestuário auxiliam a desenvolver a dramatização cantada.
Toda essa festa culmina com a queima da lapinha.

Elaborada com ervas secas e incensos, a lapa é queimada para consagrar esperanças e desejos.

Por esse motivo, todos os participantes são convidados a escrever pedidos em pedaços de papel que, colocados no fogo, são transformados em fumaça que leva aos ares as esperanças renovadas.
O ritual fecha o ciclo natalino e inaugura as festas profanas, o Carnaval.

Aprendemos ali mesmo, um pouco antes da Queima da Lapinha, com um grupo de moradores de Olinda, a tradição dos pedidos.

Em um bar no local conhecido como Quatro Cantos, entre conversas e cervejas, ganhamos papel e caneta para redigir os desejos que queríamos atendidos. E, ao lado dos novos amigos, dançamos durante o ensaio de grupo Pitombeira dos Quatro Cantos e cantamos com os cordões do pastoril.

Pré-carnaval de Olinda
Dias depois, acompanhamos o pré-carnaval em Olinda.

Chegamos cedo aos Quatro Cantos, sentamos próximos ao Grêmio Musical Henrique Dias, localizado no sítio histórico de Olinda desde 1954 – quando estão ensaiando, é uma beleza, o som se espalha pelos bares e contagia as conversas.

Nos Quatro Cantos
O pessoal vai chegando aos poucos, devagar. Todos sabem a hora em que a folia vai começar. A escola, ao fundo, trouxe à memória, claro, a Guerra dos Guararapes.
De um bar nos Quatro Cantos, assistimos a grupos de frevo e troça.

Subindo a ladeira, os foliões brincavam e convidavam para a festa. Na praça, ao lado da Igreja da Senhora do Carmo, mulheres tocavam e dançavam em ritmos contagiantes.

Aqui, só mulheres tocam!!! Uma troça e tanto!
Viajamos, curtimos, aprendemos.

Tem mais, muito mais. O encontro com uma ex-aluna da Unisinos na Praça do Artesanato, o Bar com figuras de Assombração do Recife e música local, a história do Boi Voador...

Quem sabe um dia em alguma crônica…

Como comentei no início desse texto, as vivências de um período de férias nos trazem fôlego para os dias sempre iguais.

Como é bom conhecer, reencontrar, criar novos laços. Oxalá!

marca Histori-seNotas:

  1. Sônia Braga: atriz brasileira.
  2. Aquarius: filme franco-brasileiro, estrelado por Sônia Braga, filmado no ano de 2015, na cidade de Recife (PE – Brasil).
  3. Retratos Fantasmas: documentário brasileiro dirigido por Kleber Mendonça Filho.
  4. Cão sem plumas, poema de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), publicado em 1950. Confira a publicação dessa obra pela Revista Continente 
  5. Condenado como um dos líderes da Revolta de 1824, não houve em toda a cidade de Recife e arredores quem aceitasse ser o carrasco de Frei Caneca. O governo foi obrigado a mudar sua execução para fuzilamento, morte concedida a militares.
  6. O Auto do Frade foi escrito por João Cabral de Melo Neto no ano de 1984. A obra tem como tema o último dia de vida de Frei Caneca.
logomarca Histori-se
Apoie Histori-se. Divulgue o site. Compartilhe o seu conteúdo.
Tags from the story
, ,
Escrito por
Veja mais de Vera Haas
Mulheres ao sul do Brasil
Diadorim Mulheres ao sul do Brasil Esta crônica é parte de uma...
leia mais